Tempo, Espaço e Outras Coisas Mais

00:29

           
    
                        Esse texto é para você.
Sim. Para você. Esse texto não poderia ser para qualquer outra pessoa que não você, esta pessoa que está aí, sentada, deitada, em pé, de qualquer maneira, lendo isso. Se você está lendo, então é para você. E para ninguém mais.
O que eu tenho a dizer é muito importante. Na verdade, não é nem um pouco importante, perante o grande esquema das coisas, mas talvez seja importante para você. Talvez seja, talvez não. Isso não cabe a mim ditar, mas sim a você decidir. Se essas palavras te tocarem, se você se identificar com elas, então elas são para você. Caso não, é só seguir em frente. Existem milhões de palavras em diferentes línguas, e bilhões de combinações que podem ser feitas para formularem frases novas e inéditas na história humana. Aposto que se você procurar bem, vai encontrar a combinação certa de palavras que te afeiçoe. Se ainda assim não encontrar, bem, é só criá-las por si só. Você tem plena capacidade para tal. Viva a recursividade, não é mesmo?
A verdade é que eu estou divagando. Incrível a mania incansável da humanidade de divagar, não é mesmo? Tentamos nos concentrar naquilo que é importante, naquilo que é preciso ser feito e inconscientemente nos deixamos levar por outros caminhos, por outros raciocínios, por outros pensamentos mais interessantes. Já tentou sentar para estudar para uma prova e se encontrou pensando em literalmente qualquer outra coisa que não a matéria? Já tentou contar uma história engraçada para um amigo sobre o que aconteceu com você no fim de semana, e se encontrou falando sobre sua paixonite de infância? Já tentou falar sobre tempo, espaço e outras coisas mais e se deparou com um texto extremamente vago e que não parece dizer nada além de enrolações?
Tudo bem, tudo bem, vamos lá. Tempo. Espaço. Outras coisas. Soa complicado. Soa viajado. Soa incoerente, pelo que você leu até então. E é.
A notícia triste (e importante) que eu tenho a te dar é: o tempo não existe. O espaço talvez exista, há controvérsias. Nós vamos chegar lá.
O tempo nada mais é que uma construção social designada para controlar e medir nossas vidas e o que fazemos com ela. Isso não é novidade nenhuma para muitas pessoas, mas é sempre importante lembrá-las disso. Afinal, como a pessoa que determinou que horas eram pela primeira vez poderia ter efetivamente sabido que horas eram? Quem determinou que uma hora consistia em sessenta minutos? Quem determinou que um minuto consistia em sessenta segundos? Todos esses conceitos de segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, décadas, séculos, milênios, tudo isso é meramente arbitrário. E eu não estou dizendo que isso tudo não é útil, muito pelo contrário! Se não fosse pelo controle do tempo, nossas vidas seriam muito mais vagas do que já são. O tempo é importante. E assim como todas as coisas que são importantes, o tempo é aterrorizante.
A única, absolutamente única certeza que nós, seres humanos, podemos ter na vida é a de que um dia nós iremos morrer. Não importa os esforços, a morte é a nossa única e eterna acompanhante, aquela que sabemos que nunca irá nos abandonar. E é essa infalível companheira a principal catalisadora do efeito psicológico que o tempo tem sobre nós. Porque, da mesma forma que o importante é consequentemente aterrorizante, o desconhecido também o é e causa medos de proporções iguais, se não maiores. E o que pode ser mais desconhecido para os humanos do que a morte? O que acontece depois? O que acontece durante? Para onde nós vamos? De onde viemos? E cá estou eu, divagando novamente.
O ponto é: muitos acreditam que a morte nos nega a eternidade. Mas não é esse o caso. Nós, humanos, temos todo o potencial para sermos imortais. E isso é tão aterrorizante quanto o tempo e a morte. Porque o que você faz com a sua vida pode não alterar o tempo, mas altera o espaço. Para pior ou para melhor.
Pense na história. Pense em Alexandre o Grande, pense em Gengis Khan, pense em Cleópatra, em Safo, em Napoleão, em Da Vinci, Einstein, Rainha Vitória, inúmeros outros que marcaram a história com sua grandeza, seja por suas conquistas, por seus talentos, ou por seus governos. Todos esses e muitos outros deixaram legados que foram perpetuados ao longo do tempo e que moldaram as civilizações que estavam por vir.
Agora pense no meu exemplo predileto, Vincent van Gogh. Um artista com depressão e esquizofrenia, cujas obras de arte perduram até os dias de hoje e valem milhões. Um artista que criou um estilo completamente novo de pintura, que é renomado até hoje. Um artista que nunca vendeu mais do que um quadro ao longo de sua vida, e que era considerado fracassado e louco antes de sua morte. Um artista que possivelmente morreu acreditando no que era dito sobre ele, e que nunca imaginou o quão longe ele chegaria aos olhos da história. Um artista que provavelmente acreditou que nunca seria importante, que nunca teria fama ou reconhecimento, que suas obras de artes belíssimas eram fracassos e mal-feitas. Um artista que hoje em dia é um dos nomes mais famosos da arte moderna.
O ponto em que quero chegar é que nem todos foram destinados a experieanciar a grandeza. A maioria das pessoas não foi destinada nem sequer a ser grandioso, seja na vida quanto na morte. E não existe problema nenhum nisso.
Tantas vezes nos preocupamos com nosso legado, com a importância que teremos para o mundo e para história e para o futuro da raça humana, que esquecemos que a vida é mais do que o que deixamos para trás, é mais do que o nosso legado. A vida é o que nós experienciamos, é o que nós compartilhamos, é o que nós fazemos, o que gostamos, o que pensamos, o que idealizamos. A vida é o seu milk shake preferido, a vida é o sorriso da pessoa que você ama, a vida é a piada que te faz rir, a vida é fazer uma maratona da sua série preferida, é colocar meias coloridas, é vestir sua roupa mais confortável num dia de verão, é tirar vinte fotos numa paisagem bonita procurando o seu melhor ângulo, é falar no telefone com o seu melhor amigo, é tentar um penteado novo, é se maquiar para ir numa festa, é ir ao trabalho para conseguir dinheiro, é chorar porque você se magoou, é dormir abraçando um travesseiro, é sorrir, é chorar, é ser feliz e é sofrer. Tudo isso nos torna humanos, e que importa ser lembrado daqui a mil anos por alguma coisa que você fez? Você vai estar morto daqui a mil anos. Que importa focar a sua vida em tentar ser importante, quando o que realmente importa é aquilo que você é capaz de sentir, de tocar, de amar, no agora? Se fazer uma diferença no mundo é tão importante para você, então tente começar com o seu próximo. Cada pessoa tem um mundo dentro de si, um mundo de ideias, de personalidade, de sentimentos, de opiniões únicas e singulares que nos distinguem dos demais. Ninguém é igual a ninguém, e isso é maravilhoso. Se você quer ser importante para o mundo, por que não começar pelo mundo que é a pessoa que está ao seu lado?

Nós somos bilhões de pessoas no planeta. Se cada um tentar fazer o bem ao próximo com a mesma intensidade que ansiamos por deixar um legado, o mundo seria um lugar muito melhor. Uma pessoa que se foca em fazer o bem, por menor que ela seja, é capaz de deixar legados maiores que conquistadores ou artistas ou cientistas. Porque o legado que ela deixa e perpetua através do infindável tempo e espaço é o maior bem que nós podemos cultivar: nossa humanidade.





You Might Also Like

0 comentários