FOI BOM CONVERSAR COM VOCÊ

17:25


Era o meu aniversário e como fui abandonada pelos amigos, resolvi ficar em casa e dormir mais cedo. De repente recebi um áudio no Whatsapp: “Amiga, o que você está fazendo? Vou passar aí agora e te trazer para o aniversário da Mariana.” Era a louca da Sabrina e sua mania de invadir as festas das pessoas, levando outros amigos com ela. Diante do tédio em que me encontrava, em plena sexta-feira, resolvi ceder e me arrumei. 


A festa estava bastante animada, mas confesso que em alguns momentos — para não dizer todos — pensei em ir embora. Era o aniversário de uma pessoa que eu nem conhecia, e eu estava rodeada de um monte de adolescentes que gritavam e berravam a todo o momento. Quando não era isso, faziam brincadeiras que constrangia à aniversariante.

Resolvi procurar um canto menos sociável — como sempre. Lá estava eu, sentada em uma cadeira que não fazia parte de nenhuma mesa, os pés balançando sem parar e uma agonia por querer ir para casa. Até que você chegou, sentou ao meu lado e ficou olhando o celular. Parecia concentrado e sem muitos amigos. Posso dizer que achei você muito simpático e, muito bonito também.

Crio coragem e lhe pergunto as horas. Você, meio que sem querer, responde sistemicamente e, nem olha para o lado, como alguém que quer ver a pessoa que lhe fez a pergunta. “Nossa que grosso”, pensei. Isso aumentou a minha vontade de querer partir dali o mais rápido possível, ai do nada você vira e fala comigo.

— Boa noite, tudo bem? Desculpe não lhe cumprimentar antes, estava resolvendo um problema.

Que voz maravilhosa! Seria este homem perfeito? Parei com os devaneios e respondi.

— Boa noite! Não se preocupe, percebi que estava bastante concentrado conversando ao celular. Essas redes sociais roubam todo o nosso tempo, não é verdade?

Lancei-lhe outra pergunta, pois, já que eu teria que ficar ali até a festa acabar, quis manter o papo. E que bom que ele correspondeu.

— Não gosto muito de redes sociais, uso somente o Whatsapp, porque é algo indispensável ao meu trabalho. Agora mesmo, estava resolvendo um problema com um dos meus funcionários, mas tudo se ajeitou e posso continuar a noite aqui conversando com você.

— Já que vamos conversar que tal nos apresentarmos? Me chamo Sarah e você?

— Eu não me chamo Sara. — Risos — Desculpe a graça, mas é que nossa conversa começou tão séria que precisei quebrar o gelo. Me chamo Ricardo, prazer!

Com esse clima de descontração, iniciamos um bate-papo muito gostoso e, a cada palavra que ele dizia, eu me derretia. Nunca mais tinha me sentido tão viva e inteira como naquela conversa. Havia anos que eu não conversava com alguém tão inteligente, cheio de conhecimento e engraçado. Alguém que faz com que o diálogo não fique chato e que olha em seus olhos, ao invés de olhar em seus peitos.

Falamos sobre tudo, e de repente, parecíamos melhores amigos. Falei sobre a minha mania de escrever e ele me contou sobre o seu passatempo favorito, desenhar. Incrível como um homem tão maduro, apesar da pouca idade, fazia desenhos tão adolescentes.

Como em toda boa conversa, mudávamos de assuntos com uma rapidez fascinante. Até que começamos a falar das nossas playlists favoritas e mesmo sem muitas músicas em comum, compartilhávamos do mesmo bom gosto musical. Recomendei alguns cantores e bandas, ele fez o mesmo. Prometemos, fielmente, ouvir cada música indicada e a compartilhar outras, assim que descobríssemos novas canções.

As horas iam passando e a festa desapareceu para nós, era como se estivéssemos a sós, mesmo rodeados de várias pessoas. Os risos transformavam-se em gargalhadas e o olhar, cada vez mais intimista, revelava como aquele momento era mágico. Eu estava amando aqueles instantes, tudo o que estávamos falando e a companhia tão agradável do Ricardo. Só que como nada dura para sempre, chegou a hora de ir embora. Afinal já era quase 5 horas da manhã e não tinha mais ninguém na festa, além da minha amiga, que dormia no sofá, a dona da casa e as pessoas que arrumavam o espaço.

A Mariana, bastante educada, pediu desculpa por nos interromper e comentou que precisaríamos ir, pois, o horário já havia excedido. Levantamos envergonhados e seguimos cada um ao seu carro. Trocamos abraços apertados e nos despedimos com um beijo no rosto. Ao chegar a minha casa, percebi que não tínhamos trocado os números do nosso telefone e que talvez, nunca mais voltemos a falar um com o outro, pois, na falta das redes sociais, como manteríamos contato. Agora só me restou a saudade daquela sexta-feira. E, uma semana depois, estou aqui, escrevendo sobre como foi bom conversar com você. 






You Might Also Like

0 comentários