AVISO PRÉVIO

15:07


“Cause you only need the light when it's burning low, only miss the sun when it starts to snow. Only know you love her when you let her go. Only know you've been high when you're feeling low…”

Você foi embora, e eu não recebi o aviso-prévio. Você não esteve nutrido pela impavidez, fitar-me os olhos, para assim, mesmo que fosse sem jeito, admitir, já não amava a pessoa que dividia a cama e a conta da Netflix contigo. Talvez você nunca me amou. Apenas estávamos dispostos a dividir nossa solidão a dois. Logo eu que planejo a hora exata de lavar o cabelo, - segundas, quartas e sextas; depois do jornal-, fui abandonada com tantos sonhos, fui deixada com a agenda aberta e uma mesa reservada para dois no sábado seguinte, em nosso restaurante dileto. Talvez a preferência fosse apenas sua, meus gostos foram sendo moldados aos seus. Logo eu, que coloquei você em minha vida diariamente. Aumentando a vontade e a necessidade de pertencer a você, logo eu que me doei, apresentei a minha vida e me despi de medos do passado e toda a insegurança de uma vida a dois. Logo eu, que perdi a vergonha da luz ligada, da voz sussurrada, da covinha nas costas e das marcas que a vida nos presenteia. Logo eu, que aprendi a cozinhar sua comida favorita, que revelei meus segredos, e o ruído estranho que faço quando a risada é demais e falta tempo pra respirar.
Eu perdi você, perdi a vontade de comer, o desejo de conhecer novos lugares, e nenhuma pessoa parecia ser boa o suficiente. Porquê eu fiz de você a melhor versão do seu próprio rascunho. Você era meu sonho bom, e nenhuma frase exaltada, aniversário esquecido, ou insignificância em relação às minhas necessidades foram percebidas.
A maior perca ainda foi a minha. Eu me perdi de mim mesma, esqueci quem eu era, quais as minhas vontades ou sonhos. Esqueci que adorava usar short curto, que amava meu cabelo ondulado, que sair com as minhas amigas era um dos meus rituais favoritos da semana. Eu esqueci quem eu era, e fui trocada por uma versão de mim mesma, versão esta, que apenas você gostava, para no final descobrir que já não gostava tanto assim, para no fim perceber que nem mesmo eu gostava de quem tinha me tornado.
Você falou que ia embora quando deixou de me responder, quando perdeu a vontade de me ver, ou quando o sexo ficou à mercê, mas a culpa era do trabalho, era da sua alergia que nunca curava, era da falta de tempo, era por eu ter engordado. A culpa era minha. Eu entendia, eu inventava, eu me julgava, mas você estava em um pedestal. A ligação caiu, a chuva estava forte demais, o trânsito atrasou, sua vó ficou doente, a bateria do celular descarregou. Malditas tecnologias, malditas desculpas que não me fizeram ver o óbvio. Seu adeus foi fragmentado, parcelado em dias repletos de desmazelo, falta de tempo, vontade e principalmente hombridade.
O aviso prévio ficou subentendido, gravado nas entrelinhas, eu me fiz de cega para o desfecho, fiquei acostumada a ser vendada. Ver a vida sob o véu escuro que a sua presença gerava. Estava acostumada, acomodada a ser quem você queria. Viver sem você já não me parecia uma vida. O que eu não percebia que o que estávamos vivendo  levando, já mais poderia ser chamado de vida, ou relacionamento.
A vida depois de você é mais colorida. Os sorrisos são mais sinceros, as pessoas voltaram a ficar interessante. E no fim de todo este drama, de todas as lágrimas, hoje eu percebo que você não era suficiente para mim, eu era mulher demais para um moleque. Moleque sim! Não importa que sua idade já ultrapassou o 1/4 de século, sendo que suas atitudes não correspondem aos números registrados na sua identidade ou a educação que seus pais lhe deram. Você não sabe o que quer, e eu cai de paraquedas nesta inconstância que você chama de vida. Seu rascunho era muito pouco para mim. Eu quero um editorial encapado em couro sintético, escrito em letras garrafais douradas. Rascunhos de vida escritos a lápis não se adéquam a minha insigne vida.
Ps.: Obrigada por mostrar que jamais devo me contentar com o que tenho, este medo é gerado pela birra de pisar no desconhecido, ou pela incerteza dos próximos passos, mas depois do inferno que conheci ao seu lado, eu tenho certeza que o paraíso me espera. Eu estou pronta para viver. Eu estou pronta para ser feliz e ser dona da minha felicidade.

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