CARPE DIEM E A SÍNDROME DA ERA DOURADA

18:27

      Um novo ano começou e, como sempre, as esperanças de que 2017 vai ser “o ano” são renovadas, assim como aconteceu em 2016, 2015 e por aí vai. A inigualável capacidade humana de idealizar é sempre demonstrada com bastante veemência quando se chega em dezembro, e com ele, os pedidos, resoluções de ano-novo e as promessas. Com cada pulinho das ondas, feitos muitas vezes por pessoas que nem entendem o verdadeiro significado da tradição, aumenta a esperança de que o ano que está chegando vai ser mais próspero e cheio de bonanças.
                A realidade, por outro lado, é mais desagradável do que isto. A passagem de ano é completamente ilusória. Sinto muito. Alguém, em algum ponto da história, decidiu dividir o tempo do jeito que conhecemos hoje e pronto. Aí está. Passado, presente e futuro, segregados em uma linha inteiramente ilusória que, na verdade, é bem pouco representativa da realidade temporal que ainda é muito complexa para nossa compreensão total. O ano novo não vai trazer vida nova a não ser que você lute por ela. Este conceito abstrato que chamamos de “ano” nada tem a ver com a sua mudança de vida ou de personalidade. Esperar que sua vida mude para melhor só porque soltamos fogos na meia-noite do dia 31 é equivalente a querer ganhar um emprego sem enviar seu currículo para a empresa. Nada de melhor vai acontecer a não ser que você lute por isso.
                Mas o real objetivo desse texto não é falar sobre 2017, ano novo ou o seu tio do pavê que fez a infame piadinha pela centésima vez nesse fim de ano. Não. O objetivo desse texto é falar sobre o que é conhecido como a Síndrome da Era Dourada.
                Se você já viu Meia-Noite em Paris (2011), do aclamado diretor Woody Allen, então você pode ter uma ideia do que é a Síndrome da Era Dourada. Esta síndrome acontece quando se tem a noção de que um período temporal passado seria melhor ou superior àquele em que se vive. Sabe aquela sensação que se tem quando você olha para fotos dos anos cinquenta, com todo mundo usando aquelas sainhas rodadas de bolinha e bebendo milk-shake em uma lanchonete retrô? Aquele sentimento de “eu queria estar ali”, “eu queria fazer parte daquilo”? Ou então quando você ouve um álbum de MPB dos anos 70 e pensa: “não se faz mais música como antigamente”? Esta é a Síndrome da Era Dourada se manifestando em você. Quando você olha para como sua vida era há dez anos atrás e pensa: “tudo era mais fácil no passado” – este é você, passando pela Síndrome da Era Dourada.
                Mas eis a verdade nua e crua: esse tipo de nostalgia nada mais é do que “a negação do presente doloroso”. Como foi dito no início desse texto, o ser humano possui uma capacidade inigualável de idealização, e a passagem do tempo não é uma exceção para esta regra. Afinal, quem nunca quis voltar no tempo, seja para apenas alguns anos no passado, ou para décadas atrás? Quem nunca quis conhecer figuras importantes, atores e artistas famosos, ou presenciar eventos que marcaram a história humana? A curiosidade, assim como a idealização, é uma característica intrínseca à humanidade, e juntas, acabam resultando nessa síndrome que acomete tantas pessoas e que não passa de uma forma de se tentar escapar da realidade que não queremos aceitar.
Decerto, é mais fácil se convencer de que o passado foi melhor do que o presente sendo vivenciado, afinal, o presente requer ação e mudança, enquanto o passado está ali, perfeitamente inerte e imutável, existindo apenas na sua memória ou nas páginas empoeiradas de livros ou álbuns de fotografia. O presente vai ser sempre desagradável ou, no mínimo, tolerável, e é essa a realidade inconsciente da qual estamos tentando escapar ao nos convencermos de que o passado era melhor. Quando nos convencemos de que “nascemos na época errada”, ou que “no passado eu era mais feliz”, estamos ignorando as nossas perspectivas de outrora que achavam exatamente as mesmas coisas dos anos anteriores. É fácil nos convencermos de que os anos 50 foram maravilhosos, com milk-shakes gostosos, música de qualidade (Bill Haley e Elvis!), e vestidos de bolinha bonitos. O que não nos lembramos é que eventos como o Apartheid, a Guerra do Vietnã e os movimentos antissegregacionistas americanos (liderados, por exemplo, por Martin Luther King Jr.) ocorreram justamente nos anos 50, que pelo visto não foi tão perfeito quanto a idealização nos disse.
O problema em questão não é bipolarizar as eras históricas entre boas ou ruins, perfeitas ou imperfeitas. Aplicar tal dicotomia a qualquer aspecto da vida humana é, no mínimo, ingênuo e limitador. Somos bem mais complexos do que uma etiqueta que nos rotula entre bondade e maldade. É óbvio que os anos 50 trouxeram aspectos bons e importantes para a humanidade como um todo, assim como todos os outros anos da história, mas a Síndrome da Era de Ouro acaba por nos faz ignorar o racismo, machismo e violência que eram tão presentes e tão gritantes nessa época, e diverge nossa atenção apenas aos aspectos positivos dela.
E, com toda a sinceridade, não é exatamente isso que fazemos quando olhamos para trás? O ano passado ainda é muito fresco em nossa memória, mas ao retrocedermos, cinco, dez, quinze anos de nossas vidas, não temos a impressão de que tudo era muito melhor? Muito mais fácil, muito mais próspero, muito mais prazeroso? E ao olharmos para o presente, não nos deparamos com uma realidade desagradável, que poderia ser melhor do que é?
É essa a ilusão causada pela Síndrome da Era Dourada. A vida era melhor no passado. Era tudo mais fácil há X anos. Eu era mais feliz antigamente. Mas o que falhamos em perceber é que o presente sempre foi e sempre será inevitavelmente frustrante. A vida humana nada mais é do que uma constante perseguição da felicidade e da plenitude, seja através da religião, de dogmas pessoais ou do próprio hedonismo. Desde que nascemos, nos perguntamos de onde viemos, e qual é o nosso propósito nesse mundo. A falta de uma resposta concreta e uniforme pode ser um dos motivos pelos quais tendemos idealizar o que já passou. Afinal, no passado estamos imutáveis e eternos, enquanto no presente, estamos em uma constante e incessante caminhada para o verdadeiro inevitável: a morte.
Por isso, carpe diem. Aproveite o que você tem hoje. O que está no passado foi tão frustrante para você ontem, quanto o presente lhe é hoje. E o presente, que logo se tornará passado, vai ser acabar se tornando idealizadamente perfeito para você amanhã. Não adianta viver pensando no que poderia ter sido, ou no que já foi. O que importa, daqui para frente, é o que está diante de você, e no que você está disposto a fazer para melhorar a sua própria vida. Quem caminha olhando para trás acaba tropeçando.
                O que você pode fazer para tornar seu presente menos frustrante?





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