AS COISAS QUE EU ESQUECI DE TE DIZER

22:07



    Não sei bem como começar a escrever o que pode se parecer com uma carta aberta cheia de devaneios que deveriam ter sido ditos à você e não foram. Mas acho que você me conhece bem o suficiente para saber que eu nunca sei por onde começar as coisas ou muito menos por onde terminá-las. Deve ter sido uma surpresa e tanto para você quando eu coloquei um ponto final na gente. Quem diria, logo eu. Logo você. Nossa amizade de milhões de anos, de milhões de vidas. Para quem não sabia a hora de dizer adeus, eu fui bem específica. Eu, que me dizia tão indecisa, tão insegura, tão incerta.
  Eu também me surpreendi, serei sincera aqui. Nunca achei que conseguiria de fato me afastar de você. Eu só falava quando tava puta da vida. Dizia que não ia mais voltar a te responder, que dessa vez era sério. Mas era tudo bobeira, porque eu sempre sabia que iria sim voltar no momento em que você tirasse a cara emburrada e me oferecesse um sorriso. Porque era assim, eu gostava muito do seu sorriso. Mesmo que eu jurasse no fim de todas as nossas brigas que nós não iríamos mais nos falar, eu tinha certeza que iríamos sim.
  Só que dessa vez não voltamos. Tem sei lá, uns três meses? Caramba. Muita coisa aconteceu na minha vida e na sua. Você entrou para a faculdade que você queria, arranjou um bichinho de estimação novo, pintou o cabelo pela milésima vez e eu assisti de longe. De vez em sempre, te stalkeio pelo twitter ou alguma outra rede social para saber das novidades. Imagino que se estivéssemos nos falando, você provavelmente não me deixaria escolher o nome do seu gato, o que seria uma ótima escolha sua, já que eu ia colocar o nome dele de Demetrio (Sim, porque a Demi hamster já faleceu e precisa de uma homenagem) mas eu também ia reclamar bastante do nome que você escolheu. Meu deus, que dom para escolher nomes estranhos você tem.
  As coisas na minha vida também mudaram muito, mas duvido que você saiba. Eu virei colunista de uma das escritoras que eu mais gosto (aquela que eu ficava tagarelando pra você no telefone que era a minha cara e ainda te obriguei a assistir um vídeo do youtube) e entrei para faculdade de psicologia. Sim, não foi jornalismo, nem direito, nem moda e nem publicidade. Eu coloquei um piercing. Sim, te dou tempo para ficar chocada. Fiz uma super cena, chorei, mas na verdade, nem doeu tanto. Ou pelo menos, não doeu tanto quanto nossa última conversa.
  Não tô falando da briga, porque aquela ali eu tava com raiva e você também. Tô falando da última conversa, a última da última. Aquela em que foram textos enormes e corações partidos pedindo um tempo para baterem sozinhos. Eu fiz cara de quem tava nem aí, sabia? Aquela mesma que eu faço quando digo que estou super bem e na verdade estou um caco que só. Eu sabia que me afastar era a melhor escolha naquele momento, mas isso não me impediu de sentir um turbilhão de coisas dentro de mim.
  Eu chorei escrevendo aqueles textos. Nós nos magoamos por coisas tão inúteis e fúteis que dá até pena de ver. Nós vimos o mundo girar de pontos diferentes e nunca entendemos bem o motivo de toda aquela mágoa. Você me contou as razões pelas quais se sentiu machucada, e eu juro, até hoje eu não entendo. Mas respeito. Eu vi tudo acontecer do outro lado, o meu. E eu te garanto, não foi nada do que você sequer imaginou. Doeu para ambas. E eu imagino que você, mesmo que diga que não, já que é a pessoa mais teimosa que eu conheço, também aprendeu a respeitar o meu lado, as minhas mágoas. Nós sentimos e guardamos tantas coisas por no mínimo uns 4 anos até finalmente colocarmos para fora na hora de ir embora. Por que? Acho que essa foi a minha maior pergunta.
  Porque queríamos estar juntas, mesmo que fosse um saco divergir e colidir. Nós gostávamos das nossas conversas no telefone de madrugada, das nossas idas ao shopping para fazer compras, dos nossos planos para viajar que nunca se concretizaram. Apesar de todos aqueles pesos que carregávamos, nós gostavamos MUITO uma da outra. Quer dizer, eu te odiava as vezes, mas a maioria delas era por não conseguir te odiar.
  Você me irritava e ainda me irrita, porque os graus de miopia não te impedem de enxergar o quanto eu me importava. Você escolheu não ver. Você com seus atos impulsivos me preocupava e me preocupa até hoje, porque sempre tomou as decisões que afastaram seus amigos. Tudo bem se fossem só isso, mas eram seus amigos verdadeiros. Aqueles que brigavam, que insistiam, que diziam que queriam o seu melhor, sabe? Tipo eu. Eu queria o seu melhor. 
  Talvez eu não tenha te dito a tempo, mas eu te amava muito. Na real, não vou dizer que não amo mais. Eu só não sabia muito como te abraçar, porque você parecia tão dura e fria em alguns momentos, que eu preferia deixar estar. Muitas vezes, era só você revirar os olhos que eu já tinha a certeza de que vinha tempestade por aí. Já te falei que eu morro de medo de raios? Pois é.
   Você me fez muito bem sim, me fez gargalhar. Existem dois momentos marcantes com você que me fazem chorar de verdade, daqueles que as lágrimas rolam sem parar e os dois foram com o meu pai. Mas você também me fez mal. Porque algumas palavras suas eram mais doloridas do que precisam de fato ser. Talvez seja sua proteção, mas não creio que você precisava dela quando estava comigo. 
   Você não notou, mas suas grandes amigas amavam você mais do que você pode imaginar. Amavam você porque apesar de desejarem que você melhorasse e se livrasse da suas dores, da raiva e toda aquela angústia, estávamos ali. A gente reclamava, brigava com você sim, mas nunca diga que não amavámos você como era, porque amamos você do jeito que você era em todos os momentos. Mesmo nas crises.
 Eu espero de todo o meu coração que você seja extremamente feliz. Que procure ajuda em lugares bonitos e pessoas bonitas. Espero que sinta-se confortável para liberar esse seu coração difícil e se permita amar um pouquinho mais. Que você note que quem te quer bem, enche seu saco, e quem não liga, apenas ignora e deixa passar. Espero que você case e tenha filhos, mesmo que eu (e acho que falo por mais duas outras pessoas) não venha a ser a madrinha. Espero que você cure todos aqueles males que você esconde no fundo do peito, porque eles pesam. Não se afunde. Não se torne uma estranha. Seja a nossa colega de classe da segunda série.
 Espero que você não odeie mais ninguém, porque faz mal, e saiba que eu (e eu falo novamente por mais duas pessoas) não te odeio. Espero também que saiba que você é linda e não precisa ficar chamando atenção de outras formas. E espero que tenha sempre amor para recomeçar quando tudo parecer acabado.
  Dentre as coisas que eu esqueci de te dizer, uma delas é que eu sinto muito por ter sido dessa forma. Sinto por ter esquecido o número do seu celular e do seu telefone de casa. Mas senti que não havia mais o que se fazer, porque você parecia não escutar ou interpretar o que saía de mim e de quem mais te queria por perto.
 "Ela tinha tudo para ser a melhor pessoa do mundo, porque ela é extremamente legal e fofa quando quer ser" saiu da boca de alguém que também não queria que fosse assim. "É muito raro ver alguém que não se apaixone por ela, ela é intrigante. Apaixonante" saiu de outra boca conhecida também. Bocas que apesar de te dizerem onde você estava errando, também sabiam dizer quando você acertava. Mas aposto que não sabe quem são elas.
   O ódio é um veneno que se bebe esperando que o outro morra. Não beba dele. Não tente ser alguém que você não é. Não diga coisas que você vai se arrepender de ter dito. Não afaste mais ninguém que se importa da sua vida visando apenas momentos. Pense no futuro.
  Ah, o seu crush é da minha sala da faculdade e seu outro crush trabalha no shopping. Nossa amiga do curso está grávida e sua bolsa preta de caveiras é oficialmente minha. Agora não esqueci mais nada. 

 








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